Um julgamento no recreio…
por Petrus em jul.26, 2009, em Cotidiano
Alguns dias atrás eu postei uma história da minha infância e citei que de vez em quando tenho momentos nostálgicos. Pois é, hoje tive outro desses momentos o qual também resolvi compartilhar.
Lembro-me de uma manhã, em um recreio qualquer. Eu tinha uns 12 anos, que eu bem me lembre. Era quando eu ainda usava um aparelho fixo para correção dentária, deixando-me com uma aparência bastante nerd (pior do que sou agora).
Pois bem… Eu e meus amigos estávamos a fazer nada. Só comendo o nosso lanche e jogando a conversa fora. Contudo, queríamos algo para nos divertimos. Uma brincadeira. Foi aí que meu grande amigo Antônio teve uma idéia.
-Que tal brincarmos de tribunal? Com juiz, advogado e tudo? – falou ele. Todos o olharam e automaticamente gostaram da idéia. Logo, eu e meus amigos (eram eles: Thiago, Antônio, Bruno e Acauã) estávamos já decidindo a função de cada um.
-Está certo… Eu vou ser o promotor, Antônio vai ser o advogado de defesa, Bruno a testemunha e Petrus o juiz. – falou Thiago. – E é claro, Acauã vai ser o réu.
-Por que eu tenho que ser o condenado? E por que é claro? – Falou Acauã, indignado.
-Você tem cara de marginal. – Falou Bruno. Acauã o olhou friamente. – Brincadeira! Na verdade, você é o réu pois só falta esse cargo para começarmos o tribunal.
-E por que eu não poderia ser a testemunha e você o réu?
-Porque você não tem cara de testemunha. – Eu respondi.
-Agora a pessoa tem que ter cara de testemunha para ser testemunha?
-Acauã. Vamos logo com isso. O recreio acaba daqui a pouco.
-Beleza…
Alguns minutos depois, iniciamos o julgamento. O Tribunal se localizava na escada do colégio. Eu, como juiz, ficava sentado em um degrau mais alto enquanto os outros ficavam em um mais baixo. Thiago, o promotor, ficava a minha direita enquanto Antônio, o advogado de defesa, ficava a minha esquerda. Acauã, o réu, ficava ao meio.
-Pois bem, que se tenha iniciado o julgamento. – Eu falei, com toda pompa possível. – Estamos aqui, senhores, diante dessa mesa de justiça, para julgar esse homem, civil, solteiro, nascido… Hã… Qual é a data do seu aniversário?
-19 de Novembro, senhor. – respondeu ele.
-Que ano?
-Todo ano.
Um silêncio profundo tomou conta do julgamento. Acauã riu.
-Hã… Beleza. Nascido no dia 19 de Novembro de algum ano. – Neste momento todos rimos. Depois, eu continuei. – Agora, vamos às acusações. Promotor Thiago, diga-me do que ele está sendo acusado.
-Meritíssimo. Esse cidadão presente está sendo acusado de homicídio com intenção de matar. Ele matou, deliberadamente, a mulher dele com golpes seguidos em sua caixa craniana. A arma usada: uma colher. – Pronunciou Thiago. Acauã o olhou ironicamente e falou.
-Thiago, você come o que para ter uma imaginação dessas? -
-Bem… Para ter uma boa acusação você tem que ter matado alguém. A colher foi a primeira arma que me veio à cabeça. – Respondeu Thiago. Outro silêncio profundo tomou conta do julgamento.
-Hã… Beleza. – Falei rindo. – Senhor Acauã, é verdade que você matou a sua esposa à colheradas?
-Eu era casado?
-Era sim.
-Então eu matei sim. – Falou Acauã, em tom inocente. Antônio, neste momento, olhou atônito para Acauã.
-Oh criatura! Não admita! Você tem que provar que é inocente.
-Ah! Desculpa!Então eu não matei. Eu nego. – Falou Acauã.
Silêncio.
-Aiai… Beleza. – Falei rindo. – Pois bem…
-Petrus, dê logo o veredicto. Já vai tocar e vai ser aula de educação física. – Resmungou Bruno.
-Protesto! – Falou Antônio.
-Protesto revogado. – Eu falei.
-Porque revogado, meritíssimo?
-O senhor Bruno tem completa razão ao me lembrar das regras dessa instituição de justiça.
-Instituição de justiça? Então creio eu que deverá existir justiça nesse recinto, não? Por isso lhe peço que você conceda um julgamento imparcial.
-Concedimento negado.
-Essa palavra não existe, meritíssimo.
-Estás a criticar um oficial de justiça?
-Meu emprego me concede esse privilégio.
-Privilégio negado.
-Mas isso é uma calúnia, meritíssimo! – Neste momento estávamos de pé, olhando um para o outro. – Irei encaminhar esse caso à procuradoria se você não for contundente ao seu emprego de juiz de justi…
-Putz… Está bom! – Falou Acauã. Ele se levantara e se postara entre eu e Antônio. – Petrus, porque você não arquiva esse caso e vamos logo para a quadra poliesportiva?
Eu e Antônio olhamos para Acauã. Por uns instantes, ficamos paralisados. Em seguida, caímos na gargalhada. Thiago e Bruno que assistiam a tudo, também riram.
-Beleza… Declaro o caso arquivado. Agora vamos embora…
Seguimos para a quadra poliesportiva. O caso nunca mais foi retomado. E hoje, vejo que essa brincadeira nossa refletia, e ainda reflete, a justiça brasileira, no qual muitos casos são arquivados e no final acabam em pizza.
julho 27th, 2009 on 0:46
Bem verdade…
A história foi boa e condiz com nossa situação atual.
Só há uma coisa que posso fazer:
OBJECTION!