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Gritos incessantes
por Petrus em ago.14, 2009, em Cotidiano, Política
Gritos incessantes. Mãos ao alto batendo palmas. Placas e cartazes com dizeres balançavam e anunciavam o fulgor dos direitos exigidos. E eu, adolescente, no meio de tudo, via aquela multidão em coro cantando melodias. Outros falavam palavras não tão melodiosas, mas o seu sentido não deixava a desejar. Admirei aquilo tanto que, conseqüentemente, me reuni à multidão e comecei a protestar também por aqueles direitos.
Estava feliz. Estava satisfeito. Tudo ia bem quando um estrondo, vindo de algum lugar, ecoou pela rua. Cartazes foram jogados ao chão. As palmas cessaram. Muitos gritaram de susto e começaram a correr. Eu não entendia. Fiquei estagnado no local. Eu olhava ao redor. Via o terror na face de alguns. Porém, também via a ira em outros. Olhei para frente, em direção ao horizonte. E vi. Avistei os seres que trouxeram o horror. Seres negros, vestidos como a morte. Seres vestidos de preto, os quais brandiam armas em uma mão e escudos em outra. Avançavam, em passos iguais. Avançavam com coragem. Sem temor. Avançavam com a lei ao seu lado. Avançavam como policiais. Olhei nos olhos de cada soldado, através das viseiras de seus capacetes. Aquela cena era impressionante. Continuei parado. Só me movi quando um daqueles homens avançou mais que os outros e disparou algo com a sua arma. Uma bola envolta em fumaça subiu e caiu ao meu lado, provocando um estrondo. A fumaça subiu e me sufocou. Meu pulmão se esvaziou e senti uma dor. Instintivamente, corri para longe daqueles soldados. Daqueles seres.
Olhei para trás e vi meus companheiros indo contra a fumaça, com pedras na mão. Arremessavam em direção aos policiais. Em vão, pois a pedra batia contra seus escudos, deixando-os protegidos. Automaticamente, houve disparos. Os soldados atiravam contra os manifestantes que, gradativamente, recuavam. Alguns caiam ao chão, feridos pelos projéteis de borracha. Eu, em minha inocência, assistia tudo ao longe, crendo que não seria atingido. Engano meu. Lembro-me que do nada olhei para a minha perna. Vi sangue. Havia uma perfuração. Automaticamente, senti uma dor nauseante. Cai ao chão. A bala não perfurara, só desfragmentara. Porém, doía muito. Fiquei ao chão, esperando socorro. Nada. Ouvi passos. Olhei para cima e vi os seres negros. Um deles me levantou e me guiou no sentido contrário que iam. Segurava com veemência o meu braço. A dor na perna piorara. O soldado não parecia se preocupar. Tentei olhar para trás. Os policiais avançavam. A multidão se dispersara. O fulgor dos direitos exigidos não mais refletia em suas íris. Todos desistiram. Correram. Pelo visto, não iam voltar mais em uma futura manifestação. Não iriam mais reivindicar os seus direitos. E agora, neste momento de reflexão, me pergunto: para que a luta se não houve a busca pela vitória?